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Lusolândia
By: Dário Borim Jr.
08/08/2008
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Ponteiro Cultural

Há mais de vinte e sete anos cheguei pela primeira vez em terras norte-americanas. Reagan tinha acabado de receber uns tiros. Muitos não escondiam seus motivos para lhe ter raiva. Enquanto isso, a economia do Brasil entrava para a década de 80 em frangalhos, meus pais tinham visto nascer mais duas netas (hoje, duas jovens recém-casadas), e eu carregava no peito um coração abalado por um grande amor.
      O destino já me tornara um incansável garimpeiro sobre rodas, sempre em busca do ouro da vida, mesmo que este me levasse a terras distantes. Pois, em março de 1981 eu me lancei ao sonho de viajar pelas Américas. Com o peito rasgado de conflitantes emoções, mas com a mochila transbordando de aventuras trans-americanas segui um roteiro entre Paraguaçu, La Paz, Lima, Esperança (uma vila nos Andes, no norte do Equador), Bogotá, Toronto e Clifton Forge (Virgínia). Terminaria uma série de sete domingos consecutivos em sete países, tudo isto entre as cinzas da mais nefasta quarta-feira do ano e ovos de Páscoa de 1981. Muita água rolou desde então. Troquei de faculdade meia dúzia de vezes, namorei seriamente uma dezena de brotos (até me casei com um deles), tomei muitas xícaras de café e um dia saí da universidade com um Ph.D.
      Bem, em agosto de 2000 me mudei para os Estados Unidos pela terceira vez. Desta feita não cheguei com um visto de estudante - nem de inglês e nem de pós-graduação. Trouxe do Consulado do Rio de Janeiro um visto de imigrante concedido a um professor de Estudos Brasileiros contratado pela Universidade de Massachusetts Dartmouth.
      O destino me trouxe para onde muitos portugueses têm emigrado desde 1850. Encontro-me, de fato, na outra América Portuguesa, onde as pessoas se chamam Malcolm Sousa, Kathleen Paiva, Albert Cordeiro, Jennifer Andrade, Robert Figueiredo, Shirley Mendonça e Elizabeth Mendes. Esta é uma terra em que muita gente - desde a moça que limpa a sala do reitor da universidade, uma simpática açoriana, até um vizinho, que mora em casa de meio milhão de dólares - fala português, ou, pelo menos, arranha a língua de Camões. Em comum, a população desta parte da Nova Inglaterra tem o nome e o sangue lusitanos em abundância: são aproximadamente meio milhão de portugueses e seus descendentes, que se juntam a pouco mais de cento e cinqüenta mil brasileiros.
      Nesta parte do planeta, a firma transportadora pode ser uma da família Silva; o advogado, um tal de Dr. Pacheco, e o gerente do banco, um tal de Mr. Costa. Parece-me ainda mais curioso suspeitar que em meus vinte e tantos anos de carreira como docente eu jamais tenha tido um percentual tão alto de alunos com sobrenomes portugueses - nem mesmo no Brasil, onde muitos estudantes têm sobrenome italiano, alemão, ou sírio-libanês.
      O que isso tudo pode representar para mim, um mineiro natural de Paraguaçu, por quinze anos filho adotivo de Belo Horizonte e, por outros onze anos, expatriado entre as Montanhas Rochosas do Wyoming, as costas ensolaradas da Califórnia, e os Lagos congelados de Minnesota? Isto quer dizer que perto do Cabo Bacalhau, "nesta zona" (como dizem meus conhecidos de Além-Mar), há um novo encontro entre brasileiros e portugueses, onde, principalmente nós, os batuqueiros, "descobrimos" os amantes do fado.       Temos aqui, juntos aos queridos irmãos cabo-verdianos, uma especial oportunidade de conhecer melhor uma cultura que sustenta as bases sócio-históricas da cultura brasileira (que também adora bacalhau), e que, no entanto, hoje, conhecemos muito mal lá no Brasil.
      Nós, brasileiros da Lusolândia, devemos desfrutar destas possíveis descobertas luso-afro-brasileiras em plena Nova Inglaterra, região onde supostamente vive o povo mais ianque dos Estados Unidos. A mim nem faz mal que meu próprio português se deixe influenciar um pouquinho pelos sotaques açorianos ou pela sintaxe de Coimbra, ou que meu coração brasileiro se ponha mais perto das suas remotas origens, superando o tempo e a distância, potenciais inimigos entre a terra e o rebento.


©O Jornal 2010


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